Domingos Xavier Viegas: "O risco de incêndio em Portugal vai multiplicar"

Atualizado: 8 de jul.

Cinco anos depois da tragédia de Pedrógão Grande, Xavier Viegas, que estudou a fundo o incêndio, é perentório: é preciso reduzir a carga de eucalipto. Especialista defende ainda a construção de charcas para travar fogo em desfiladeiros. E confessa-se chocado com o abandono a que continua votada a floresta.




Nos anos 80, confrontado com a tragédia do incêndio de Armamar, que vitimou 14 bombeiros, Domingos Xavier Viegas começou a trabalhar nas bases para a investigação de acidentes em incêndios florestais. Nada se fazia em Portugal nessa área. Investigador e professor da Universidade de Coimbra, jubilado da vida académica em 2020, fundou em 1990 a Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial, onde funciona o Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), e lidera atualmente o estudo europeu sobre grandes incêndios FirEUrisk – o risco que temos pela frente até com as alterações climáticas e como mitigá-lo. Em 2017, coordenou a investigação do incêndio de Pedrógão Grande, com um relatório que apontou graves falhas que contribuíram para a tragédia. Chegou ao terreno na madrugada de domingo, 18 de junho. Passam cinco anos. Em entrevista ao Nascer do SOL, confessa que é chocante ver o estado de desordenação da floresta, pronta para arder de novo.

O relatório que fizeram sobre o incêndio em Pedrógão Grande continua a ser um murro no estômago. O que sente ao revisitar aquele fim de semana de junho de 2017?

É sempre complicado retornar a essas memórias, mas é preciso. Lembro-me que o primeiro aniversário foi talvez o mais difícil, estávamos muito perto dos acontecimentos e das pessoas. Desde então tenho tentado estar sempre. Tenho recordado muitas vezes esses eventos, também a peritos estrangeiros que nos visitam, porque foram acontecimentos que motivaram muito estudo de toda a comunidade que trabalha nesta área, por isso é algo que tenho muito presente. Voltando àquele fim de semana, só me apercebi que alguma coisa estava a correr mesmo muito mal mesmo ao final do dia.

Que primeiras notícias lhe chegaram?

Nessa tarde estava fora de Coimbra, próximo da praia com a família, na Figueira. Estava muito quente e começaram a chegar informações de um incêndio para os lados de Pedrógão. Ao início nem se sabia que Pedrógão era. Não eram muito alarmantes, aliás havia vários incêndios. Quando estava a regressar a Coimbra, olhando para o interior, na direção de Castanheira de Pera e Pedrógão Grande, vi nuvens de fumo muito altas e negras, como não me lembro de ter visto alguma vez.

Chamaram-lhe a atenção.

Claramente. Às vezes veem-se nos grandes incêndios nuvens altas, mas em que a parte superior é branca, até por causa da condensação do vapor de água. Lembro-me de uma nuvem negra que parecia carvão, como se fosse de noite, e essa imagem ficou-me retida. Já à noite, tive a informação de que estavam a trazer bombeiros feridos para o Hospital de Coimbra e, como eram de corporações com quem nós temos trabalhado, a minha primeira reação foi ir lá. Encontrei vários bombeiros de Castanheira de Pera, que tinham trazido o bombeiro que viria a falecer, e pessoas que tinham trazido civis feridos. E foi só a partir daquela hora, pelas 21h30, 22h, que nos apercebemos da gravidade do que estava a acontecer. Ainda no hospital começámos a ouvir cinco, seis, dez, 13 corpos e a contagem continuou a aumentar. Voltei para casa e decidi que tinha de ir lá. De noite não iria fazer nada, mas na madrugada seguinte fui com um colega meu em direção à Estrada Nacional 236-1. Ao chegarmos, encontrámos as equipas da Polícia Judiciária e da Medicina Legal, que estavam a fazer o levantamento dos corpos. E aí foi um choque muito grande. Vi 30 cadáveres.

Era um cenário que infelizmente já tinha acontecido noutros grandes incêndios noutros países. Estudando acidentes há 30 anos, imaginava que pudesse acontecer cá?

É claro que podemos imaginar, mas nunca acreditamos que possa acontecer e que um dia o viéssemos a testemunhar. Ao longo dos anos tínhamos vindo a estudar grandes acidentes, sobretudo com bombeiros. Para se ter uma ideia, até 2017 o número de vítimas mortais entre profissionais era sempre superior aos civis e esse ano inverteu isso. Pelas nossas contas, contávamos 180 bombeiros mortos em incêndios em Portugal até 2017, desde os anos 80, e 90 civis. Em 2017 morreram 118 pessoas nos incêndios. Vimos que no nosso país podiam acontecer estas tragédias. Como disse, já tinha acontecido noutros países, infelizmente nos anos seguintes vimos tragédias na Grécia, nos EUA. Em 2021, aconteceu na Turquia e para mim um dos casos mais impressionantes foi na Argélia, onde próximo de uma aldeia morreram 87 civis. Cá, Pedrógão provocou uma enorme mudança na perceção do perigo dos incêndios rurais.

Num ano trágico, em que o que não se podia repetir aconteceu de novo três meses depois.

E perante isso só podíamos estudar e tentar perceber o que se passou e o que correu mal, o que o Governo nos pediu logo de início no incêndio de Pedrógão Grande.

Concluíram que foi uma tempestade perfeita: falta de limpeza, falta de meios de socorro, falha nas comunicações.

E com alguns fatores pouco vulgares, o que nos levou algum tempo de estudo a perceber. Passaram-se ali fenómenos que era difícil, com a ciência de que dispomos, poder prever. Quando as pessoas põem reservas em relação ao que fez a Proteção Civil, e os bombeiros, digo sempre isto.

Uma das questões logo suscitada foi porque é que a GNR mandou as pessoas seguir pela estrada onde foram encurraladas pelo fogo.

Sim, esse é um aspeto, mas era extremamente difícil naquelas circunstâncias saber onde cortar a estrada ou o que fazer. Tenho dúvidas que o corte da estrada tivesse sido a melhor decisão em qualquer ponto. Creio mesmo que a tentativa de corte da estrada no acesso ao IC8 talvez tenha motivado a acumulação de pessoas na 236-1, que depois veio a causar a sua morte. Estamos a falar de uma área com uma rede viária muito densa e de boa qualidade, com boas estradas, bem sinalizadas. É extremamente difícil, naquele emaranhado de estradas, decidir cortar num ponto ou noutro porque quem é de lá conhece sempre um atalho.

E há o instinto de fugir ou ir salvar o que é seu.

Infelizmente o que aconteceu em muitos casos em Pedrógão foi pessoas que estavam em casa ou tinham pessoas em casa, foram lá retirá-los para os levar para outro sítio e não conseguiram. Uma parte deste território, e temos isso bem estudado, é famoso por ter como que a configuração de uma fornalha, um círculo com cerca de 10 quilómetros de diâmetro. Tínhamos duas frentes de cada lado e as pessoas no meio queriam fugir. Os sobreviventes contaram-nos que, para onde quer que fugissem, encontravam fogo. As pessoas andaram para um lado e para o outro a tentar furar. Felizmente algumas sobreviveram, mas muitas não conseguiram. Uma coisa importante para perceber esta tragédia e a sua singularidade é que não tivemos um mas dois incêndios, duas ignições, em Escalos Fundeiros e Regadas.

Concluíram que o segundo foi menosprezado, nem teve registo oficial, e acabaram por juntar-se, com a interação entre os dois fogos naquela zona a contribuir para uma propagação muito extensa e rápida do incêndio a partir das 19h30 e até cerca das 20h30.

Uma tempestade de fogo. Ao ver aquilo, as pessoas perceberam que iria destruir tudo. Mesmo em casas em que havia segurança e que até resistiriam, as pessoas convenceram-se de que não iam aguentar. A maioria das vítimas morreu a fugir, com muitos relatos no mesmo sentido: nove pessoas que estavam a preparar-se para jantar, cinco pessoas que também estavam numa cave e fugiram e acabaram por ser atingidas pelo fogo.

Quando falámos pela primeira naqueles dias, dizia ‘falhámos todos, falhámos enquanto país’. Apuraram no entanto alguns fatores. Que expectativas tem em relação à leitura do acórdão marcada para setembro? Imaginava que cinco anos depois ainda não houvesse uma decisão?

Em relação ao tempo da Justiça, não quero comentar porque já estamos habituados em Portugal a que estes processos sejam lentos. Sei que este é um processo complicado, com muitas pessoas envolvidas. Eu próprio participei e fui chamado a tribunal e há muitas coisas em cima da mesa. Não querendo comentar em detalhe, há dois aspetos que me tocam mais diretamente. Um é o início do incêndio. Criou-se uma confusão logo no início de que teria sido causado pela trovoada que naquele dia afetou a região e boa parte da Península Ibérica.

Chegou a ser dito logo naquele fim de semana pelo diretor da PJ que o incêndio tinha tido causa natural, para afastar mão criminosa.

É certo que a trovoada com raios causou focos de incêndio mas para nós está mais do que apurado de que este incêndio de Pedrógão Grande, e os dois focos na sua origem, não têm nada que ver com a trovoada. Foram causados por uma descarga da linha elétrica na vegetação em dois pontos.

Tem a ver com o tempo que estava naquele dia?

O que eu diria é que aquele tipo de toques entre a linha elétrica e a vegetação, nos dois locais, já vinha a acontecer há meses, pelo menos meses. O que acontece é que quando há esses toques, se for de noite ou um dia húmido, a vegetação até pode inflamar-se e cair no chão, mas não há condições para iniciar o fogo. Nesse dia realmente as condições eram outras: a vegetação estava muito seca e qualquer partícula incandescente podia causar um incêndio. Sabemos que quando há esses toques, parte da vegetação, neste caso folhas das árvores, podem inflamar-se e cair e ao cair vão dar origem a focos de incêndio. Certamente é isto que nos dois pontos terá acontecido.

Por falta de manutenção das instalações elétricas?

Sim, falta de cuidado que havia na manutenção dessas instalações.

E agora já há mais cuidado?

Julgo que há uma mudança na atitude quer dessas empresas, neste caso da EDP, quer das empresas que gerem a vegetação ao longo de estradas. Como sabemos, naquele território era manifesto que não havia esse cuidado, com árvores ao lado do alcatrão, e isso não era tolerável. Havia obrigação de em 10 metros ao longo da estrada limpar a vegetação e isso não estava garantido, o que podendo não ter evitado tudo, podia ter salvo vidas e levado a que as coisas fossem diferentes. O que para mim é preocupante é que passados cinco anos – e vou lá com frequência mas voltei há coisa de um mês, até com o grupo de investigadores do projeto europeu que estou a coordenar – é ver que aquilo que ardeu, os restos, muito ainda lá está. Os troncos de eucaliptos queimados, uns de pé, outros caídos. E depois ver toda a regeneração de eucalipto, muita acácia. Está tudo a crescer num matagal, num abandono completo. Dá ideia de que as pessoas desistiram de fazer e de cuidar da floresta.

Foi chocante percebê-lo?

Muito chocante. Se há território no nosso país onde alguma coisa se devia ter feito de diferente era aquele. Foi uma área onde morreram 66 pessoas. Ao longo daquele troço da N236-1, onde morreram 30 pessoas, se olharmos à volta – e nessa altura levámos um drone e fizemos fotografias – é chocante. Ver tudo aquilo rodeado de regeneração de eucalipto, às vezes novas plantações, mas tudo desordenado...

Responsabiliza o Estado, o Governo, as câmaras, os proprietários ou mais uma vez não é um responsável único?

É uma vez mais um conjunto, uma atitude que é nacional. É certo que aquilo são terrenos privados, provavelmente alguns são parcelas pequenas, mas se o nosso Governo não soube aproveitar este choque para mudar e sensibilizar as pessoas, e levá-las a fazer algo diferente, quando é que isso irá acontecer? Passados cinco anos, nada disso foi feito. E era possível, tanto que sabemos que em algumas aldeias, e lembro-me de uma em concreto que é Ferraria de São João, a que levei os nossos colegas e ficaram impressionados.

Estivemos lá e regressámos agora. É impressionante ver aquele cinturão de carvalhos, sobreiros.

É um testemunho fabuloso. Aquelas pessoas sentiram que naquela noite podiam ter morrido todas e fizeram acontecer. A toda à volta estava fogo. Felizmente para eles a aldeia já estava relativamente protegida, o fogo veio de um lado e não entrou, mas arrancaram eucaliptos e plantaram árvores. Portanto é um exemplo.

Houve outros programas, como as Aldeias Seguras, para maior capacitação da população. Está desiludido com o que foi feito?

O programa Aldeias Seguras era uma resposta ao essencial do que se passou em 2017, quer em Pedrógão, quer em outubro. O que aconteceu naquele ano não foram mais incêndios, foi a morte de pessoas. E essa é a realidade. Podemos tolerar que haja incêndios, e vamos continuar a tê-los, não podemos é tolerar a perda de vidas. O programa era bem intencionado e uma boa iniciativa, mas realmente não estou totalmente satisfeito porque era algo que devia chegar a cada cidadão e a cada aldeia, mas é impossível fazê-lo tudo de uma vez e na minha opinião devia ter-se começado por um conjunto de aldeias, fazendo as coisas com mais profundidade. E o que vi ser feito, não tendo acompanhado tanto os últimos meses, foi que se definiram normas de segurança, se nomeava o oficial de segurança, se fazia um simulacro, mas sem continuidade.

Ensina-se que as pessoas devem ir para um ponto de encontro, o toque dos sinos.

Sim, um pouco de show para sensibilizar as pessoas, mas depois parece que muitas coisas ficavam no ar, que não se continuou a dar formação às pessoas, nomeadamente aos encarregados, e que não se promoveu que as pessoas continuassem a trabalhar umas com as outras em comunidade para melhorarem a sua proteção. Este é um trabalho de longo curso, não é algo que se faça com uma sessão. Implica bastantes recursos e julgo que isso não está ainda a ser feito. Depois houve o percalço das golas, um detalhe infeliz, mas que desprestigiou um pouco a iniciativa e retirou o entusiasmo de quem estava a trabalhar.

Compradas as golas erradas, inflamáveis, podia ter sido feito alguma coisa para gerir melhor esse escândalo?

Como digo, foi um detalhe, mas infelizmente não foi o suficientemente ou imediatamente ultrapassado. Seguramente agora está, mas o programa merecia muito mais atenção e há muito mais coisas a fazer e a realizar. Aqui há dois anos, quando a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais – AGIF (criada depois de 2017) – apresentou o seu programa nacional de ação, com cerca de 200 projetos, um deles era o das Aldeias Seguras. Enquanto membro do Observatório Técnico Independente, tive acesso aos orçamentos e não gostei de ver que o programa tinha um orçamento na ordem dos 300 ou 400 mil euros, o que é ridículo para o território e para a importância que tem a iniciativa.

Dá menos de mil euros por aldeia, nem dá para as deslocações...

Por aí. Sei que depois foi aumentado, mas quando olho para projetos que havia lá, por exemplo uma plataforma informática que recebia 10 milhões de euros, deu-me ideia de que havia alguma falta de critério.

Uma plataforma para quê?

Tenho ideia que era para avaliação de dados da floresta, mas pareceu-me um gasto completamente desproporcionado face à importância que podia ter o programa Aldeias Seguras. Refiro isto porque às vezes parece haver alguma falta de sensibilidade, neste caso das autoridades, para este problema. Apercebi-me claramente que a seguir ao incêndio muitas pessoas, e até entidades, não tinham percebido o que se tinha passado. Ainda falavam de hectares, euros, etc, mas não se davam conta das 66 pessoas que morreram, dos feridos. Viu-se isso depois no modo como as autoridades locais acompanharam a reconstrução daquela zona. Chamo-lhe uma segunda tragédia. Tivemos duas tragédias em Pedrógão Grande, uma foi o incêndio e a morte das pessoas, a outra foi a gestão dos recursos que a sociedade portuguesa ofereceu àquela comunidade. Como nos lembramos, houve uma mobilização que juntou cerca 13 milhões de euros, uma coisa nunca vista, e sabemos muito bem que esse dinheiro foi em boa parte desbaratado. E o que isso fez foi destruir a confiança dos portugueses.

As pessoas passaram a ficar de pé atrás.

Creio que nunca mais se voltou ao mesmo. Basta ver que, em outubro de 2017, que em vítimas não foi diferente, com muito mais áreas ardidas, quaisquer campanhas que tenham sido feitas não chegaram a 200 mil euros. Muito aquém. As pessoas perderam a confiança e julgo que isso é algo em que devemos refletir enquanto cidadãos. Que capacidade têm as nossas autoridades de chegar junto das pessoas, de avaliarem a situação delas, de resolverem os seus problemas? Lembro-me que no segundo dia em que estava em Pedrógão, perto da EN236-1, fiquei muito impressionado com um senhor que veio ter comigo e disse: ‘Professor, veja se põe saneamento na nossa aldeia’. Quer dizer que há gente que vive ali, a pouco mais de 30 quilómetros de Coimbra, ao lado do IC8, da A13, infraestruturas importantes, e que não tem saneamento básico.

E agora já tem?

Não sei, oxalá que sim, naquela altura não tinha. Penso que isto diz muito sobre como estamos a cuidar deste território e destas pessoas.

Falou há pouco dos eucaliptos, que foi algo que se debateu de novo depois dos fogos e agora estão, mais uma vez, por todo o lado. São ou não um problema em Portugal?

Direi que sim. Não tenho nada contra eucaliptos, não sou dos fundamentalistas que acham que o eucalipto devia ser completamente eliminado. Reconheço que é uma riqueza e uma fonte de produto importante para o país, mas como técnico de incêndios e alguém que estuda a dinâmica do fogo, não posso deixar de dizer que é uma espécie extremamente perigosa. Admito que se as plantações forem bem geridas, limpas, poderão de alguma forma não ser tão facilmente tomadas pelos incêndios, mas a realidade que temos é completamente outra. Matas de eucalipto desordenadas, não limpas, com árvores muito próximas umas das outras, onde o fogo entra com facilidade. E o problema é esse: quando o fogo entra, há uma libertação de matérias orgânicas que libertam muito calor. Em Pedrógão, devido à densidade, vimos fenómenos a que não estávamos habituados: chamas que se formavam muito acima das árvores, tal era a libertação de matéria combustível. Isso fez com que, nesse dia, as pessoas falassem de bolas de fogo que andavam pelo ar, como se estivessem dentro de um forno. Na minha opinião isso deve-se em boa parte ao estado do eucalipto.

E depois de tanto debate, a forma como está a zona de Pedrógão acaba por ser a prova de que o eucalipto não se ordenou.

Exatamente. Há um aspeto que torna especialmente perigoso o eucalipto: a casca, quando está a arder, pode projetar-se a centenas de metros ou quilómetros. No incêndio em Pedrógão, como voltou a acontecer em outubro, houve muitas situações dessas. Em concreto no incêndio de Pedrógão houve uma situação em que as projeções foram parar ao outro lado da A13 – a Alvaiázere, a quilómetros da frente principal – e deram origem a focos de incêndio, que foram no início vistos como incêndios diferentes.

O Governo limitou a plantação de eucaliptos, no ano passado houve uma polémica com a autorização de nova área. Sabemos também que se não forem arrancadas as raízes voltam a crescer. Muitos terrenos estão ao abandono. Como é que se resolve?

Não tenho assim grandes soluções. Posso dizer que a minha equipa está a trabalhar com outras entidades num projeto de transformação da paisagem e que, no nosso caso, abrange este território do incêndio de Pedrógão. A proposta que estamos a fazer é que seja alterada substancialmente, com introdução e facilitação do crescimento de outras espécies, com separação das áreas de eucalipto com espécies menos inflamáveis, ou espaços agrícolas ou faixas de descontinuidade. Mas a preocupação central é essa: reduzir a carga de eucalipto. Outra proposta é que passemos a ter charcas que aumentem a nossa capacidade de retenção de água. Essa água iria aumentar a humidade do território e, ao mesmo tempo, dar-nos mais recursos para conter o fogo.

Pequenas charcas ao longo da floresta?

Sim, o tempo das grandes albufeiras acabou. Com estas micro albufeiras, pensamos que podemos contribuir para melhorar a situação. Há uma ideia que pensamos que será exequível que é, em particular em zonas com desfiladeiros, que sabemos que são perigosos em termos de propagação de fogo sobretudo próximos de estradas e aglomerados populacionais, ter estas pequenas represas, substituindo a vegetação que lá está e minimizando o risco de um fenómeno que é bem conhecido, que é o fogo a propagar-se em desfiladeiros onde o combate se torna muito difícil. Se conseguíssemos multiplicar estas charcas pelo território, estaríamos para resolver estes dois problemas: a falta de água, que se vai sentir cada vez mais no futuro, e ter mais recursos para melhorar o combate.

Naquele fim de semana de junho, apesar de estar um calor abrasador, não havia reforço de meios porque no calendário não estava ainda na fase crítica de incêndios. Ainda agora houve um reforço de meios perante calor extremo. Aí vê melhorias?

Claramente. Há duas coisas em que já se vinham notando melhorias antes de 2017. Uma foi a melhoria de eficácia do ataque inicial. Em 1980, metade das ignições que havia eram apagadas antes de ultrapassar um hectare. Essa percentagem tem vindo a aumentar e atualmente está nos 85%/90%, o que é notável. Apenas 10% a 15% dos focos de incêndio escapam a esse ataque inicial. Isso já estava a melhorar antes de Pedrógão mas consolidou-se. O que também é notável é a redução de ignições. Desde os anos 80, tivemos dias com 500, 600, 700 ignições em pleno verão e com este número de ocorrências não há sistema que resista. Felizmente o número de ignições tem vindo a diminuir. No ano passado tivemos o menor número de ocorrências. Haver menos ocorrências favorece o combate, os alertas são levados mais a sério e são ativados mais meios. Não vai só um helicóptero, vão dois, são três ou quatro viaturas. Tenho tido conhecimento de situações dessas aqui na zona, o que leva a que o fogo seja imediatamente extinto. Agora isto só é possível quando não há muitas ocorrências. E também gostava de referir algo que me parece muito importante, que é uma atuação cada vez mais visível dos sapadores florestais, que dependem do ICNF. Já existem há muitos anos, na minha opinião não de uma forma muito enquadrada, e nos últimos anos isso tem mudado. Têm um plano de locais estratégicos de pré-posicionamento em dias de maior risco, que permitem um alerta mais rápido.

Em 2017, essa vigilância foi um dos aspetos que falhou.

Por acaso em Pedrógão é importante referir que os primeiros a chegar ao incêndio de Escalos Fundeiros foi uma brigada de sapadores, mas isso hoje está muito mais reforçado.

Até hoje que muitos jovens têm a ideia de uma vida mais em contacto com a natureza, se fosse uma profissão valorizada, podia ser algo aliciante para atrair gente para o interior?

Acredito que sim, que temos de chamar pessoas mais jovens e que este tipo de funções são importantes para garantir um bom ataque inicial. Mas costumo dizer que, se só fizéssemos isso, não estávamos a resolver o problema. Estávamos realmente a evitar que houvesse incêndios, mas a acumular combustível...

Para um grande incêndio.

Sim. Por isso há que fazer isso, mas também uma maior prevenção e gestão da vegetação, gerir a floresta, aproveitar o material.

Já falámos do que foi e do que não foi feito. Vemos ondas de calor mais frequentes, recordes de temperatura mais cedo no ano. Para que é que nos devemos preparar?

Pois, infelizmente essa é uma realidade preocupante. No cenário de alterações climáticas, há quase uma certeza de que teremos maior risco de incêndios. Por mais que cuidemos e façamos marcha atrás na floresta, o risco de incêndio vai agravar-se em territórios onde já existe e até em territórios onde ele não existia.

Ainda esta semana foram retiradas de um parque de campismo mais de duas mil pessoas no sul de França, há um grande incêndio em Espanha. Parece o novo normal.

E esses são os territórios que já tinham risco, mas vemos países como a Alemanha, Noruega, Suécia, Países Baixos cada vez mais preocupados. Do que tenho lido, o risco de incêndio vai multiplicar-se por dois ou três em Portugal. Não sei exatamente o que significa, mas o que podemos esperar é a ocorrência de mais ondas de calor, de fenómenos atmosféricos associados a tempestades tropicais como foi a Ophelia em 2017, que contribuiu para os incêndios, períodos de grande secura e falta de água, que leva a que a vegetação esteja disponível para arder. Tudo isto é preocupante porque é o que vemos acontecer, não é um futuro lá longe. Estamos a ter incêndios cada vez maiores de ano para ano e nesse sentido este cenário é preocupante. Nesse projeto europeu FirEUrisk estamos precisamente a pensar neste futuro e em como podemos preparar-nos. É claro que não podemos retirar a vegetação do território, porque é necessária – até para contrariar a mudança climática – mas o problema da vegetação no posso país é que cresce espontaneamente em muitos casos e é altamente inflamável da forma como está. Se não fizermos nada, vamos aumentar ainda mais o nosso risco.

Temos de domesticar a nossa floresta?

Sim e isso requer um grande esforço nacional. Estamos a tentar perceber como é que a tecnologia pode ser uma ajuda, introduzindo máquinas robotizadas que possam fazer parte desse trabalho mecanicamente, com sistemas mais automatizados, porque faltam-nos braços para fazer esse trabalho, em particular em torno das casas e das aldeias. De resto, penso que há uma maior sensibilidade para isso. Em 2017, em Pedrógão, estudámos mais de mil casas atingidas e destruídas pelo fogo de alguma forma e verificámos que naquelas onde na limpeza à volta estava em falta mesmo que fosse num pedaço, era como se não estivesse limpo e o grau de destruição era muito maior.

Acha que as pessoas perceberam isso?

Penso que sim, quem está nos locais percebe isso e tem havido um maior empenhamento das autoridades.

Estamos em seca, vemos um tempo instável. Este ano está particularmente preocupado?

Sim. O que notamos pelo menos aqui na região de Coimbra é que a precipitação caída é muito abaixo do normal. Em maio caíram 5mm de precipitação em todo o mês.

A nível nacional, houve 13% da chuva normal para o mês de maio.

É muito pouco, temos um défice de água no solo. A limpeza vai sendo feita, há coisas a acontecer, mas é um ano de risco. Mas costumo dizer uma coisa: não são as altas temperaturas que causam os fogos. Termos condições de perigo não tem necessariamente de ser significado de grandes incêndios. Se tivermos cuidado e precaução de não fazer o uso indevido de fogo, de prevenir o que pode ser prevenido, penso que podemos passar um ano sem grandes problemas.

Sente que o comportamento da população mudou?

Estou convencido que sim. Naturalmente, se houver mais campanhas de sensibilização, mais vigilância e mais atuação em relação a crimes de fogo posto ou negligência, isso tem impacto.

Pelo menos hoje parece que estamos mais alerta.

Sim, oxalá essa sensibilidade permaneça e que não tenhamos de ter outro choque como em 2017 para que o comportamento e o cuidado se mantenha.

O professor jubilou-se em 2020. Na sua última aula, recordou que além da investigação, sempre entendeu que a ciência tinha de estar ao serviço da sociedade e, sendo até engenheiro mecânico de formação, hesitou entre a luta pela diminuição da sinistralidade rodoviária e a prevenção de incêndios. O país está mais atrasado nos incêndios?

Felizmente na segurança rodoviária melhorou-se muito face ao que era a realidade. Não trabalhei nesse campo mas aqui em Coimbra tomei a iniciativa de convidar, mais do que uma vez, responsáveis da prevenção rodoviária para falarem do que foi feito. É claro que isto dá-se em parte devido à melhoria do parque de estradas e automóvel, mas também do comportamento das pessoas e da consciência dos condutores.

Acabam por ser áreas com paralelismos: dependem da intervenção do Estado e de mudanças de comportamento.

Claramente. E julgo que, tal como nesse campo houve campanhas persistentes, quase diárias, também devíamos trabalhar na prevenção dos incêndios de um modo continuado. Este ano não me lembro de ter visto ainda nenhuma campanha e penso que devia haver durante todo o ano, com trabalho de fundo em várias frentes. Claro que devo reconhecer que o tema dos incêndios é mais complexo do que o da segurança rodoviária. A segurança rodoviária também depende de vários fatores e de condições meteorológicas, mas o número de fatores é menor e são mais controláveis. Mas há pontos em que sim, se tocam e podemos aproveitar alguma experiência. Tal como quando há uma curva perigosa temos sinalética a avisá-lo, há redução de velocidade, creio que a difusão de conhecimento junto da população sobre o que representa no dia-a-dia o nível de perigo de incêndio e os diferentes índices de perigo seria muito útil. Às vezes ouve-se dizer que isso seria uma ajuda para os pirómanos… Eles não precisam disso, infelizmente. Mas o cidadão comum tem de estar informado, precisa de estar preparado para eventos perigosos. Isso é fundamental quanto mais não seja porque quando há estes incêndios muito grandes não podemos esperar que haja um bombeiro em cada casa e a socorrer cada pessoa. Muitas vezes as pessoas ficam entregues a si próprias e têm de saber o que fazer, antes, durante. E muita gente não tem ideia do que é um incêndio e do que pode acontecer.

Pode dar um exemplo?

Podíamos falar de várias coisas, mas há uma ideia muito simples: se há o perigo de um incêndio chegar à zona onde a pessoa está, é preciso decidir em antecedência retirar-se de lá, o que deve ser feito com os vulneráveis, sobretudo idosos e crianças. Se a pessoa vê que tem condições para permanecer, naturalmente terá de medir as suas forças, mas é recomendável e desejável que fique. Se as casas já são normalmente lugares seguros, a presença de pessoas ajuda a que sejam salvaguardas. A experiência mostra-nos que uma casa, de um modo geral, não é destruída pela passagem do fogo. É destruída depois disso, por focos de incêndio que ficam à volta. Se houver pessoas que permaneçam e apaguem esses focos, os danos são menores. Agora o pior que pode acontecer é a pessoa, se porventura não teve tempo de se retirar em antecipação, querer fugir no meio do fogo. É a pior das opões. Em situações em que há fogo generalizado, em zonas em que a cartografia é complexa, muitas vezes as pessoas estão a pensar que fogem para um sítio seguro e não é. Estudámos dezenas de acidentes ao longo destes anos e vimos exatamente isso: pensavam que iam para um local, para uma casa ou para outra, pensavam que tinham tempo para chegar, iam numa curva e viam o fogo lá em baixo e pensavam que tinham tempo, mas o fogo anda mais depressa do que elas. Portanto diria que o pior é querer fugir do fogo à última hora.

Fonte: https://sol.sapo.pt/artigo/773997/domingos-xavier-viegas-o-risco-de-inc-ndio-em-portugal-vai-multiplicar


 



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